Monday, August 07, 2006

24 HORAS – A VERDADE

Este é o emocionante relato de um dia na vida do agente Cajó, que pertence à CTU Lx (entidade fictícia), com o objectivo de desmistificar a ideia algo fictionalista que as pessoas têm dos agentes federais americanos.

Neste caso, o agente Cajó depara-se, como habitualmente acontece com o agente Jack Bauer, com terroristas, mas que neste caso ameaçam os Estados Unidos com o poderoso Gás Jamaica – uma perigosa e eficaz invenção que deixa as pessoas atordoadas e com a mania que a vida é um relax, entre outras aventuras. Muito perigoso, de facto...

7.00 – Cajó chega ao fim de uma activa e trágica noite em que, apesar de (e a partir de Lisboa) salvar os EUA da devastação pelo odor intenso a adubo orgânico concentrado, congeminada por um grupo terrorista de agricultores madeirenses comandados por Beto João (um desconhecido), perde duas tias-avós viúvas de 80 anos, que vinham da missa dominical na Renault 4 L a abrasar a 20 à hora e levaram com uma avestruz suicida em cima. As senhoras faleceram com o susto.

7.15 – Cajó à beira de roulote Pita Shoarma a meter para dentro duas bifanas com pickles, cebola e mostarda, e uma bebida cujo nome não se pode dizer, mas que começa com o C, termina com o a, e tem no meio oca Col.

7.25 – Cajó a correr para a casa de banho mais próxima, a rogar pragas ao Sr. Shoarma mais ao raio dos pickles que lhe estão a dar a volta à barriga.

7.32 – Cajó, ao telemóvel, com o computador portátil ao colo, controla uma arriscada e ambiciosa missão a partir do wc do Atrium Saldanha, que envolve o resgate de um ministro que não se quis identificar, a sua voluptuosa e ardente sobrinha brasileira e de um major de roupão Channel que diz que não tem nada a ver com esta história e nem com aquela do Apito Dourado.

16.32 – Cajó, mais aliviado, salva Berenice, a loira do escritório em frente, que estava a ser assediada por um indivíduo cujo aspecto não agradou a Cajó.

16.33 – Cajó descobre pela pior maneira que o indivíduo era o namorado culturista da sua musa – leva com uma valente galheta no meio dos olhos.

16.34 – A bela Berenice, apesar de ter sido salva por Cajó, também o premeia com um soberbo sopapo na tromba.

16.35 – Arrastando-se, Cajó abandona o local da cena.

16.45 – Cajó recolhe-se ao seu gabinete, onde fuma um charro do tamanho de uma aeronave, para destressar (isto podia dizer-se?)

18.45 – Cajó, depois de colocar as ideias em dia, decide ir até às docas lanchar.

18.52 – Cajó parado na Avenida da Liberdade por causa de uma manifestação da Administração Pública.

19.23 – Observando perspicazmente a rua, Cajó observa um indivíduo de aspecto suspeito, carregando sorrateiramente uma caixa que não parece muito normal.

19.25 – Cajó em perseguição do suspeito que, quando deu pela sua presença, largou a fugir como se não houvesse amanhã.

19.32 – Esta acérrima perseguição termina com a captura do indivíduo por parte de Cajó.

19.33 – Cajó interroga entusiasmadamente o suspeito, entre tabefes e alguns pontapés, durante uns minutos, conseguindo, enfim, sacar algumas informações.

19.45 – O indivíduo suspeito era entregador da Hagen Daas que, tendo em conta que a encomenda ficou inutilizada, decidiu mandar a conta para o CTU Lx. Aliás, o aspecto suspeito do indivíduo perseguido deve-se ao facto deste andar indeciso entre ser hippie ou dread mas, em qualquer caso, já não tomar banho há 8 semanas.

20.31 – Cajó chega ao carro que abandonara na via pública e vê uma multa no para-brisas, bem como um bloqueador na roda traseira.

20.39 – Depois de chorar baba e ranho de tanta raiva, Cajó entra em acção: saca do pé de cabra que tem na mala do carro para as emergências e arranca o maldito bloqueador para os infernos, amolgando apenas um pouco da jante.

20.58 – Cajó solta um vigoroso urro de vitória, enquanto levanta os braços aos céus, e chora novamente baba e ranho, desta vez de alegria.

21.10 – De novo no carro, Cajó telefona ao seu primo Tino, para não libertar ainda o seu Gás Jamaica, que é para ele experimentar antes.

21.36 – Cajó, num conhecido bairro lisboeta, na casa do seu primo Tino, a recolher a amostra do Gás Jamaica.

21.53 – Cajó, num miradouro de Lisboa, experimenta o potente Gás Jamaica. “Esta m*** é mesmo forte!”

5.09, dois dias depois – Cajó acorda. Sai do carro, espreguiça-se, verte águas e dirige-se à roulote mais próxima.

5.23 – Cajó, em frente à roulote Titanic, indeciso entre o Menu Bota Abaixo e o Menu Vai ao Fundo.

E assim se passou mais um dia típico na vida do nosso herói.


Temos depois, para comparar, a rotina diária da ignóbil criatura Marta Turela, cujo dia-a-dia é... uma pasmaceira...

5.30 – Acordar porque a parva da gata está a arranhar a porta da varanda para ir para a vadiagem.

5.33 – Mandar uma pantufa à gata, porque ela não se cala...

5.45 – Talvez consiga voltar a adorme... rrrrrrrrr

6.30 – O maldito despertador. Lá me arrasto da cama, em direcção à casa de banho, enquanto sou assediada e perseguida por duas gatas que acham que a minha função é encher-lhes as respectivas malgas.

7.00 – Saio de casa a correr para ir apanhar o comboio a um... apeadeiro em situação de catástrofe natural que dá pelo singelo nome de Santana-Cartaxo, mas que, se forem verificar, não aparece em nenhum mapa...

7.09 – Apanhar o comboio. Daqui a 1h deve chegar a Santa Apolónia. Quem mora em Benfica pode demorar mais tempo. É o que dizem as estatísticas...

8.14 – Autocarro aziago para a zona da Graça. Atulhado de pensionistas que vão não sei para onde àquelas horas da manhã, e em pleno Inverno. Grandes probabilidades de atropelar algum mais incauto que se aventure fora da passadeira. É uma coisa interessante, que pode até dar mais algum sumo à vida. Com sorte, no sentido literal...

8.32 – Café!! Eu preciso!! Agora!!

9.00 – 13.00 – 4 horas aborrecidíssimas, durante as quais tento visualizar a imagem do meu patrão de pernas para o ar quando caiu da cadeira. Lindo!!

13.00 – 14.00 – Net, escrever, envenenar-me com qualquer coisa menos saudável. Às terças-feiras, vou directa com a Elisabete para a Feira da Ladra...

14.00 – 18.00 – 4 looongas horas em que me babo em frente a um computador. A única emoção é quando me engasgo com o chá verde...

18.01 – Início de uma quase corrida até Santa Apolónia.

18.03 – Atravesso o Largo da Graça, geralmente a correr à frente de algum taxista.

18.11 – Largo de Santa Clara. Olhar bem para todos os lados, para não ser atacada por um agarrado com a ganza, interpelada por idosas com uns livrinhos debaixo do braço, atropelada por um carro que mudou abruptamente de direcção mas que se esqueceu de fazer pisca, entre outras aventuras de cariz radical.

18.14 – Chegada a Santa Apolónia.

18.20 – Nos dias bons, o comboio parte sem atrasos. Quando há jogo de futebol, atrasa sempre. A minha teoria é que o maquinista está a fazer pirraça por não poder ver o jogo e, assim, mais ninguém vê também!

18.20 – 19.10/20/30/40/45/58 – Hora de maior produtividade do dia!! Escrever, escrever e escrever. Não há balanço que enjoe!! E as populações ferroviárias são umas cobaias muito interessantes de observar...

19.10/20/30/40/45/58 – Pois é! O horário de chegada também pode variar, dependendo, por exemplo da hora a que a composição sai da estação de Setil.

19.30 – Nos dias de sorte, ainda consigo ver os Morangos com Arsénico. São muito inspiradores...

20.00 – Jantar – não interessa o quê...

20.00 – 00.00 – Incrivelmente, não sei para onde vai o tempo.

00.00 – 5.30 – Nestes últimos meses, com duas gatas a alternar os turnos do cio, não se consegue passar uma noite completa a dormir. Já pensei em mandar alguma delas para Shangai, mas acho que não as aguentavam por lá. Tem muito mau feitio...
É nestas alturas que surgem aquelas ideias brilhantes, do tipo “amanhã vou tirar os parafusos todos da cadeira do patrão, deixando-a montada. Resultado: quando ele se sentar, espalha-se em cheio no meio do chão. Posso pendurar os parafusos no tecto com fita cola daquela grossa, como a que usavam nas suiniculturas para agarrar as moscas.”

1 comment:

Eduardo Rafael said...

Bem... Esta do agente cajó tá mesmo demais. Não há nada que pare este homem. Nem a imaginação fértil da sua criadora...